Maria Clara Rodrigues
Pais
Membro tipo4
Offline
Mensagens: 458
|
 |
« Responder #16 em: Janeiro 12, 2008, 06:52:37 » |
|
Mário: Eu sou mãe. Um dos meus filhos morreu há oito anos. Tinha 26. Consigo adivinhar o seu sofrimento porque a tragédia que se abateu sobre a minha casa atingiu toda a família. Sei como os irmãos sofrem. Sei, também que nem sempre são acompanhados devidamente. Não porque os pais não os amem muito, mas porque eles próprios ficam destroçados. E, se esses irmãos não encontram dentro da sua própria casa um sustentáculo para a sua angústia, também não o vão encontrar junto dos amigos. É que, quem está de fóra, fica abalado com o sucedido, mas essa imagem menos boa vai-se esbatendo. É normal isso acontecer.
Por isso Mário, se ainda não conseguiu reorganizar a sua estrutura interior que tão sacudida foi, peço-lhe que procure ajuda. Os meus filhos, apesar de lhes termos prestado muita atenção, ficaram muito perturbados. Foi com muito esforço que começaram a emergir do fosso onde todos caímos. As saudades do irmão ainda hoje doem muito. Há, no entanto, pequenas coisas que ajudam a lidar com a ausência física de quem partiu. Recordar o que foi a vida com ele, falar dele com os pais ou quem alguém que saiba ouvir, escrever aquilo que lhe vai na alma, deitar para fóra toda a revolta (se é que ela existe), dizer a esse irmão que nunca será esquecido e, até, pedir-lhe ajuda para os momentos difíceis que custam a ultrapassar. Não cale dentro de si essa amargura. É bom partilha-la. Vai sentir-se mais leve e com mais força para enfrentar todos os desafios inerentes à sua própria vida. E chore sempre que tiver vontade. É um direito seu.
E, não se esqueça, a melhor homenagem que poderá prestar ao seu irmão, é procurar ser feliz. É mesmo um dever que tem para com a sua própria pessoa. Só poderá recordar o seu irmão se realizar os seus próprios sonhos e concretizar todos os seus projectos.
Mário, é com muito carinho que lhe envio um abraço. Nós, os pais, não estávamos preparados para experimentar dor tão grande. Mas doi-me muito saber que os nossos filhos, os irmãos que cá ficaram, foram surpreendidos tão cedo pelo sofrimento. Por isso eu sinto tanto o que lhe aconteceu. É co m ternura que lhe digo isto.
Volte sempre que quiser. Maria Clara
|